Tuchel testa Bellingham a avançado e projeta a era pós-Kane

Foto: The Guardian
A Inglaterra venceu a Chéquia por 2-0 em Praga, numa partida a contar para a Nations League em que Harry Kane voltou a marcar perto do final. No entanto, o desfecho do encontro abriu espaço para um debate mais profundo sobre o ataque da seleção inglesa. Quando o capitão saiu do terreno de jogo, Jude Bellingham assumiu o papel de número 9 nos minutos finais, dando início a uma reflexão pública de Thomas Tuchel sobre as opções futuras da equipa.
O que aconteceu
O encontro na capital checa começou a inclinar-se favoravelmente para a Inglaterra a meio da primeira parte, momento em que a seleção da Chéquia ficou reduzida a 10 jogadores devido a uma expulsão. A superioridade numérica traduziu-se no marcador através de Anthony Gordon, que apontou o primeiro golo da partida. A assistência para esse golo inaugural pertenceu a Trent Alexander-Arnold, lateral que não representava a seleção inglesa desde junho de 2025.
Mais tarde, Harry Kane fixou o triunfo com um remate certeiro nos últimos instantes do desafio, ampliando o registo inglês na partida. Logo após o golo, o capitão foi substituído por Bellingham, que herdou a braçadeira de capitão e ocupou a posição de referência mais adiantada no relvado até ao apito final. Esta reorganização tática ocorreu num contexto em que pontas de lança habituais como Ollie Watkins e Ivan Toney não integraram esta convocatória.
A ausência de alternativas diretas no banco de suplentes levou Tuchel a ensaiar uma dinâmica diferente na frente de ataque. A partida serviu também para afastar a memória recente da derrota averbada frente à Espanha no sábado anterior. Com o triunfo em solo checo, a formação orientada pelo técnico alemão somou três pontos preciosos e subiu ao segundo lugar no Grupo A3 da Nations League.
As declarações
No final da partida, Thomas Tuchel abordou abertamente a transição na linha avançada e descartou a hipótese de procurar um clone direto para o atual ponta de lança titular de 33 anos. O selecionador alemão foi categórico ao avaliar a singularidade de Harry Kane, sublinhando que o caminho passa por desenhar alternativas com características distintas. "Não vão arranjar outro Harry Kane, antes de mais. Procuramos soluções diferentes. Terminámos o jogo com o Jude como número 9. Haverá outra pessoa mas não será o Harry nem uma cópia do Harry. Encontraremos uma solução quando chegar a altura, mas talvez não comigo. Podem passar outros 10 anos", afirmou o técnico.
O treinador explicou igualmente a razão pela qual vê com agrado a colocação de Jude Bellingham no eixo ofensivo ou como elemento imediatamente atrás do ponta de lança. A intenção tática passa por potenciar a presença nas alas e aproximar as duas principais figuras inglesas dentro do desenho tático. "Gosto dele a [número] 9. Assim ele pode contribuir para ambos os lados e sobrecarregar as alas sem afetar tanto o equilíbrio. Encontrámos um papel novo para ele no último jogo, como [número] 10 central, para poder ir a ambos os lados e ser mais um 4-2-3-1 do que um 4-3-3, para ter o Harry e o Jude mais próximos e dar-lhes a oportunidade de sobrecarregar ambos os flancos", detalhou Tuchel.
O capitão Kane, que trabalhou com Tuchel no Bayern Munich após ter sido contratado pelo clube alemão em 2023, também comentou o rendimento dos companheiros, reservando palavras elogiosas para o regresso de Alexander-Arnold ao onze. O avançado destacou a versatilidade e a dedicação do lateral direito durante todo o período de trabalho conjunto. Harry Kane reforçou a importância do trabalho continuado do companheiro perante a equipa técnica nacional, salientando o impacto do jogador nas duas fases da partida em Praga.
Porque é que isto importa
A discussão em torno da sucessão de Harry Kane ganha peso imediato pela dependência histórica que a seleção tem demonstrado em relação ao seu avançado principal. Com 87 golos apontados em 123 internacionalizações, Kane representa um patamar estatístico quase inalcançável para qualquer concorrente imediato, projetando-se a marca dos 100 golos no horizonte. A ausência simultânea de Ollie Watkins e Ivan Toney colocou em evidência a falta de alternativas consolidadas de raiz com experiência comparável no futebol internacional.
Outros nomes avaliados no radar inglês apresentam percursos internacionais muito mais modestos. Dominic Calvert-Lewin soma quatro golos em 13 internacionalizações com 29 anos de idade, enquanto Liam Delap conta apenas 23 anos e ainda não tem afirmação consolidada nas grandes decisões da seleção sénior. Perante este panorama, reinventar a estrutura tática sem depender da existência de um ponta de lança puro tradicional torna-se uma prioridade estratégica evidente.
A Inglaterra enfrenta assim um dilema de substituição geracional que se arrasta desde o ciclo pós-Euro 2024, dada a dependência contínua dos apoios e da capacidade de finalização de Kane. A experiência prévia de Bellingham a desempenhar funções adiantadas e de referência ofensiva móvel no Real Madrid surge como um caminho viável. Esse papel permite à equipa ganhar agressividade e chegada à área sem ficar refém da presença fixa entre centrais de um finalizador tradicional.
O que vem a seguir
A afirmação destas soluções táticas terá novo teste no sábado seguinte, dia em que a Inglaterra defronta a Croácia em Rijeka. Instalada agora na vice-liderança do Grupo A3, a equipa inglesa precisa de consolidar o rendimento e pontuar para assegurar a perseguição à liderança da tabela classificativa da Nations League.
O encontro na Croácia servirá para perceber se Tuchel voltará a recorrer a Bellingham no papel de número 9 ou se dará minutos a outros perfis em fases decisivas. Paralelamente, permanece por esclarecer se Alexander-Arnold conseguirá segurar a titularidade no flanco direito após ter estado afastado da equipa nacional durante mais de um ano.
Reformulado a partir de notícia publicada por The Guardian. Ver artigo original ↗