Fraude do Manchester City abre vaga de indemnizações milionárias

Foto: The Guardian
O Manchester City foi considerado culpado de mais de 100 infrações financeiras por uma comissão independente da Premier League. Perante a decisão, vários clubes rivais exigem uma sanção desportiva sem precedentes, defendendo que a despromoção ao Championship por apenas uma temporada não é suficiente para punir o clube.
O que aconteceu
A comissão independente concluiu que o Manchester City operou um esquema estruturado de financiamento disfarçado e recorreu a contratos comerciais fictícios ao longo de vários anos. As conclusões confirmam grande parte do processo disciplinar que colocou o clube sob escrutínio institucional detalhado.
O Manchester City mantém formalmente a sua alegação de inocência relativamente a todo o processo. O clube reiterou que se considera "inocente das acusações feitas pela Premier League e existe um conjunto abrangente de provas irrefutáveis em apoio de todas as suas posições, relativamente a este caso".
Os prazos processuais entram agora numa fase determinante. O prazo formal para a apresentação de recurso termina esta sexta-feira, esperando-se que todo o processo de apelo esteja formalmente concluído até ao final de janeiro.
Os números do caso
A escala deste caso não encontra qualquer comparação na história da competição inglesa. Das 115 acusações inicialmente levantadas contra o Manchester City, a comissão independente deu como provadas mais de 100 infrações às normas financeiras em vigor.
A investigação apurou que o clube inflacionou artificialmente as suas receitas em cerca de 900 milhões de libras entre 2009 e 2018. O processo sancionatório atinge este desfecho após quase 8 anos de investigações contínuas conduzidas pelos órgãos de controlo da liga.
A dimensão financeira do caso ganha outro relevo quando confrontada com processos disciplinares anteriores. O Everton enfrentou recentemente uma dedução de pontos devido a um excesso de gastos de 19,5 milhões de libras, um valor substancialmente inferior ao apurado em Manchester. Esse mesmo processo culminou numa indemnização de 35 milhões de libras atribuída ao Burnley através de um processo de arbitragem.
Do lado dos adversários da liga, a posição manifestada internamente reflete a exigência de medidas exemplares. Segundo uma fonte de um clube da Premier League, "a despromoção ao Championship por uma temporada seria insuficiente. A comissão tem de chegar a uma punição proporcional a anos de trapaça sustentada e deliberada, além de constituir um forte dissuasor para que não volte a acontecer."
Porque é que isto importa
A condenação não se esgota nas potenciais penalizações desportivas ou administrativas aplicadas pela própria liga. Ao confirmar formalmente a adulteração de dados financeiros, a decisão abre a porta a um contencioso cível sem paralelo entre os próprios participantes da competição.
O precedente legal foi já estabelecido pela arbitragem independente que obrigou o Everton a indemnizar o Burnley em 35 milhões de libras, precisamente pelos danos resultantes do incumprimento das regras de sustentabilidade financeira. Este mecanismo permite que clubes lesados por condutas irregulares recorram aos tribunais arbitrais para exigir compensações diretas por receitas de transmissão e bilheteira perdidas.
Neste enquadramento, clubes como o Manchester United, o Arsenal, o Tottenham e o Liverpool estão já a avaliar avançar com ações judiciais contra o Manchester City. No futebol profissional, a classificação final e o acesso às provas europeias determinam dezenas de milhões de euros em receitas de transmissão televisiva, prémios de desempenho e patrocínios. Caso fique demonstrado que o sucesso desportivo do City assentou em infrações comprovadas, os lesados diretos possuem uma base jurídica sólida para reclamar indemnizações por prémios não auferidos e lugares perdidos em competições internacionais.
O que vem a seguir
O foco centra-se agora na tramitação do recurso, cujo prazo de submissão expira esta sexta-feira. Uma vez admitido o processo de apelo, o regulamento estipula um período máximo de 12 semanas para a realização das audiências perante o painel de recurso independente.
Após o fecho das alegações formais, o painel dispõe de uma janela de 30 dias para deliberar e publicar a sua decisão definitiva. O calendário prevê que a sentença final esteja concluída até ao encerramento de janeiro, momento em que se saberá se a punição desportiva transitará em julgado.
Permanece por esclarecer qual a extensão e o valor total que Manchester United, Arsenal, Tottenham e Liverpool poderão reclamar judicialmente caso a condenação se torne definitiva. Do mesmo modo, falta conhecer a punição específica que a direção da Premier League irá propor formalmente perante a comissão na fase sancionatória. A decisão final determinará se as medidas aplicadas conseguem, no plano regulamentar, restabelecer a integridade competitiva da prova.
Reformulado a partir de notícia publicada por The Guardian. Ver artigo original ↗