Etihad processa Premier League após sanção ao Manchester City

Foto: Sky Sports
A Etihad Airways está a estudar uma ação judicial formal contra a Premier League, na sequência da condenação do Manchester City por infrações financeiras graves emitida por uma comissão independente. O anúncio abre a perspetiva de uma batalha jurídica fora da jurisdição desportiva habitual, com a transportadora aérea a tentar defender os seus próprios interesses comerciais e institucionais perante as conclusões do processo desportivo inglês.
O que aconteceu
A comissão independente nomeada para apreciar as acusações formuladas pela Premier League considerou o Manchester City culpado de infrações financeiras de gravidade elevada. O órgão concluiu que o clube inflacionou ilegalmente as suas receitas entre as temporadas de 2009/10 e 2017/18, num valor total que atingiu os £830m em proveitos comerciais considerados irregulares.
Apesar das referências explícitas aos fluxos financeiros sob investigação no relatório final, a Etihad Airways não foi nomeada diretamente na versão publicada da decisão. Ainda assim, as conclusões relativas a patrocínios suscitaram uma resposta imediata por parte da entidade comercial.
A transportadora dos Emirados Árabes Unidos recusou terminantemente qualquer participação em esquemas contratuais irregulares com o emblema de Manchester. Paralelamente, o Manchester City já comunicou de forma oficial que irá recorrer da decisão condenatória emanada pela comissão arbitral, mantendo a contestação formal às imputações disciplinares.
Cronologia: do contrato de 2011 à ameaça em tribunal
O relacionamento formal entre as partes desenvolveu-se ao longo de mais de uma década, passando de acordos de expansão global para uma disputa de grande complexidade administrativa e regulatória.
Em 2011, as duas entidades estabeleceram uma parceria estratégica com a assinatura de um contrato de patrocínio alargado de dez anos, avaliado na altura em £400 milhões, o qual abrangia os direitos de nomeação do estádio e a publicidade no equipamento principal.
A Premier League avançou formalmente com uma acusação disciplinar contra a gestão do Manchester City em fevereiro de 2023, alegando mais de 100 infrações às suas regras financeiras e organizativas ao longo de diversos exercícios fiscais.
Entre setembro e dezembro de 2024, decorreu a audiência perante a comissão independente designada pela liga, na qual foram analisadas todas as provas periciais e documentais apresentadas pela acusação e pela defesa do clube.
A 30 de setembro de 2026, a comissão independente declarou o Manchester City culpado de infrações financeiras graves, validando as teses de receitas artificialmente inflacionadas ao longo de quase uma década.
Na mesma data, perante a publicação das conclusões disciplinares, a Etihad Airways anunciou oficialmente que avalia a interposição de uma ação judicial contra a própria Premier League para mitigar os danos associados ao processo.
Porque é que isto importa
O diferendo ganha uma dimensão singular ao transpor os limites das instâncias arbitrais privadas do futebol inglês para os tribunais comuns. A jurisdição interna da Premier League vincula exclusivamente os clubes que dela fazem parte, o que significa que patrocinadores e terceiros não dispõem de direito de audição ou representação direta nos processos disciplinares da comissão.
Com um valor de mercado estimado em £4 mil milhões, a Etihad Airways vê-se confrontada com conclusões desportivas que atingem a idoneidade das suas práticas contabilísticas internacionais. Através de comunicado oficial, a transportadora sublinhou a gravidade da situação reputacional: "A Etihad rejeita categoricamente qualquer conclusão ou implicação que sugira que a companhia aérea alguma vez esteve envolvida em acordos comerciais impróprios."
Ao optar por abrir a via dos tribunais civis, a companhia aérea introduz um precedente de litígio entre patrocinadores corporativos e organizadores de competições desportivas. De acordo com a posição tornada pública, "a Etihad irá procurar aconselhamento jurídico relevante sobre as opções e recursos disponíveis para proteger os seus interesses", acautelando eventuais repercussões comerciais em escala global.
Processos por difamação ou perdas comerciais na esfera cível podem forçar a divulgação e o escrutínio público de relatórios probatórios que a justiça desportiva normalmente mantém sob reserva. Acresce que, tratando-se da transportadora de bandeira dos Emirados Árabes Unidos, o contencioso contratual assume contornos que extravasam a regulação de regras desportivas privadas.
O que vem a seguir
A liderança do Manchester City manterá a sua contestação através do circuito de recursos desportivos previsto nos regulamentos vigentes. O dirigente Ferran Soriano tinha já classificado o processo instaurado pela Premier League como uma teoria da conspiração, evidenciando uma rutura total entre a gestão do clube e os órgãos de cúpula da competição.
O clube sustenta a ausência de infração e prepara os elementos materiais para a nova fase recursória. Paralelamente, permanece por esclarecer a jurisdição específica, seja nos tribunais do Reino Unido ou dos Emirados Árabes Unidos, em que a transportadora pretende avançar com o processo judicial contra a Premier League.
Reformulado a partir de notícia publicada por Sky Sports. Ver artigo original ↗