Caso Mpasi expõe dúvidas sobre critérios de elegibilidade da FIFA

Foto: The Guardian
A FIFA está sob nova pressão depois de terem surgido relatos de que os seus próprios serviços jurídicos concluíram que Lionel Mpasi, guarda-redes da República Democrática do Congo, não tinha completado o processo necessário para representar a seleção congolesa durante a qualificação para o Mundial de 2026. Ainda assim, a RD Congo não foi afastada da prova e o jogador continuou elegível na prática até à fase final.
O que aconteceu
Mpasi nasceu em França e representou seleções jovens francesas antes de passar a jogar pela RD Congo. De acordo com investigações publicadas esta terça-feira, a Federação Congolesa iniciou em 2021 o procedimento para mudar a associação internacional do guarda-redes, mas o processo não terá sido concluído formalmente junto da FIFA.
O problema ganhou peso depois do duelo entre Nigéria e RD Congo no playoff africano de novembro de 2025. A partida terminou empatada 1-1 após prolongamento e os congoleses venceram por 4-3 no desempate por penáltis. Mpasi esteve em campo durante os 120 minutos.
A Federação Nigeriana apresentou depois uma reclamação sobre a elegibilidade de jogadores congoleses. A FIFA rejeitou essa contestação por razões processuais e de prazo. Mais tarde, porém, juristas da própria organização terão identificado o caso específico de Mpasi e considerado que a mudança de associação não estava formalmente concluída.
O ponto central do caso
A questão não é apenas saber se o guarda-redes reunia condições pessoais para representar a RD Congo. O ponto mais sensível é o procedimento administrativo exigido para um jogador que já atuou por outro país em competições de formação mudar de associação internacional.
As regras da FIFA preveem sanções quando um jogador é declarado inelegível após uma reclamação válida. Entre as consequências possíveis está a derrota administrativa da equipa que utilizou o atleta, além de multa. Os relatos agora divulgados indicam que a situação de Mpasi foi conhecida antes de a RD Congo disputar o playoff intercontinental que decidiu a qualificação para o Mundial.
Mesmo assim, não houve uma decisão disciplinar pública que retirasse à seleção congolesa o direito de continuar. A equipa superou a Jamaica na repescagem intercontinental e garantiu presença na fase final do Mundial de 2026.
Porque é que isto importa
A controvérsia coloca o foco na consistência com que a FIFA aplica as próprias regras. Um processo de elegibilidade não é um detalhe meramente burocrático: serve para determinar se um jogador pode ou não representar oficialmente uma federação em competição internacional.
Quando existe uma infração potencialmente capaz de alterar o resultado administrativo de uma eliminatória, a forma como a entidade reguladora reage torna-se parte do próprio resultado desportivo. Neste caso, Nigéria, Jamaica e outras seleções envolvidas no caminho da RD Congo tinham interesse direto na aplicação uniforme das normas.
A situação também provoca perguntas sobre transparência. A FIFA afirmou que os seus órgãos jurisdicionais são autónomos e que a reclamação nigeriana se tornou definitiva depois de ter sido considerada inadmissível e não ter sido objeto de recurso adequado. Ao mesmo tempo, rejeitou qualquer sugestão de interferência do presidente Gianni Infantino na condução do processo.
Essa distinção será agora importante para a credibilidade da resposta institucional: uma coisa é uma reclamação ter falhado por razões formais; outra é saber se a FIFA, depois de detetar por iniciativa própria uma possível irregularidade, tinha obrigação de abrir ou prosseguir um procedimento independente.
O percurso de Mpasi no Mundial
A ausência de sanção permitiu que Mpasi continuasse integrado na seleção congolesa. O guarda-redes fez parte do plantel oficial da RD Congo no Mundial e participou na campanha que levou a equipa até à fase a eliminar.
A própria lista oficial de jogadores da competição registava Mpasi como guarda-redes da RD Congo e atleta do Le Havre. O seu nome ficou, por isso, ligado não apenas à qualificação discutida, mas também à participação efetiva da seleção no torneio.
O que vem a seguir
As revelações aumentam a pressão para que a FIFA esclareça quando teve conhecimento definitivo da situação, que opções disciplinares foram analisadas e por que razão nenhuma delas alterou o percurso competitivo da RD Congo.
A Nigéria poderá ainda procurar novas vias institucionais ou compensatórias, embora o Mundial já tenha terminado e a decisão inicial sobre a reclamação tenha sido considerada definitiva. Para a FIFA, o problema mais duradouro pode ser outro: demonstrar que os mesmos critérios de elegibilidade são aplicados de forma previsível, independentemente da federação ou do momento da competição.
Reformulado a partir de notícia publicada por The Guardian. Ver artigo original ↗
Também noticiado por: Le Monde, FIFA squad list.